O DONO DO NÚMERO 123

Sabe quando você se sente confortável com uma pessoa? Eu me senti confortável com alguém que nem conheço.

Assim que ele chegou ao meu lado eu já me senti confortável, senti que estava ficando mais perto dele. E antes que eu me diga que tinha achado ele bonito, tinha mesmo mas só tinha visto cabelo e olhos, ele tava de máscara.

Ele também deve ter se sentindo ok porque não se afastou.

Trocamos alguns olhares na fila, não lembro se palavras, e eu besta sentei longe do que eu sabia que ele poderia sentar.

Quando fomos chamados, eu era o número 122 e ele 123, andei bem na frente, não sei o que me deu, eu deveria ter esperado ele. Quando cheguei na curva, dei uma olhada para trás e ele estava olhando e rindo, com a máscara no queixo.

Já na sala do pátio, eu sentei num lugar que desse pra ele sentar perto ou algo do tipo. Ele sentou o mais perto que deu.

Fui chamada primeiro que ele, quando estava saindo da sala ouvi um “boa sorte”, acho que foi uma voz feminina, olhei pra trás, lembro de ter dito um “obrigada”, e fixei o olhar nos olhos dele. Senti algo.

Em seguida ele foi chamado e ficou em pé ao meu lado, assim que ele se posicionou me perguntou “tá nervosa?”, eu tava, eu respondi “hã?”. Ele falou novamente “tá nervosa?”, respondi que tava muito. Fiquei bem ao lado dele, bem mais alto, eu tava tão perto que minha visão ficava muito só para a barba mal feita e a máscara verde rasgada no queixo.

Perguntei qual faixa contínua na rampa ele tinha falado que tinha reprovado. Ele não tinha me falado isso, eu ouvi na conversa dele com a menina que estava atrás. Pra perguntar isso meu rosto quase encostou no dele, tive que ficar nas pontas dos pés pra apontar pro chão da rampa. Ele respondeu “não, tá vendo aquela ali embaixo? Foi aquela ali mesmo.” Eu já tinha visto que seria aquela linha porque não tinha como ser em outro lugar.

Ele disse que tava nervoso só com a primeira garagem porque não tinha como fazer da maneira que ele sabia, o carro ficaria estacionado errado.

Eu não compreendi a conclusão dele porque nitidamente o carro ficaria certinho se ele fizesse como é ensinado nas aulas práticas.

Fiquei olhando pras garagens enquanto ele falava tentando visualizar o que ele tava tentando dizer, então em um momento eu fiquei de costas pra ele enquanto ele apontava para as garagens “tá vendo que tem dois gelos baiano?” “Tô” “então ali que eu tô falando”.

Um carro se aproximou da garagem 3 e ele disse “vamos ver”, fiquei olhando o carro entrar na garagem e pensando em quão doida era a conclusão dele de que o carro não entraria. Então ele disse “nada a ver o que eu falei, fiz a matemática errada, realmente tem como entrar”.

Não lembro exatamente o que eu disse que deu para entender que não era a minha primeira vez, então ele perguntou “é a tua segunda vez?” e eu disse “não, é a terceira ou quarta, perdi as contas já” ele riu. Mas riu mesmo. Sabe quando uma pessoa ri que se encurva para frente? Ele riu assim. Também ri. Daí ele falou “já entra no carro colocando terror na pessoa dizendo ‘essa é a minha quinta vez’” e riu mais.

Não foi uma conversa de 5 minutos.

Fui chamada para fazer a prova e não me despedi.

Foi uma conversa confortável, como não me senti em alguns momentos esse ano.

Eu deveria ter pedido o número ou o nome ou alguma identificação, qualquer coisa.

Eu senti algo, saudades. Mas saudades de quem não conheço? Eu não sei, porém senti saudades quando saí da prova.

Ele é bonito. Tava vestido bem. Tem um sorriso bonito. Não consigo encontrar um caminho pra chegar até ele, creio que preciso superar que nunca mais vou encontrar ele.

Enfim, foi isso. Que seja feliz.

Saudades, menino dono do número 123 da prova do detran do dia 17/11 às 9:45.

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